
Vista
Panôramica de Porto Velho (Rondônia)
1910
Os
Trilhos e as Trilhas da Mandeira-Mamoré
José
Sebastião Witter
Diretor do Museu Paulista da USP
Perdidos
no tempo e no espaço, a ferrovia,
os funcionários, os diretores, os
operários e os habitantes da região
ressurgem, agora, no final do século
e do milênio, através de uma
documentação preciosa, que
o tempo não destruiu. Em outra época,
nos fins do outro século, o XIX,
os projetos de implantação
de ferrovias, no Brasil, ganharam força
e impulso. De norte a sul do país
os trilhos se superpunham às trilhas
abertas pelos homens obstinado que acreditavam
na modernização, através
do “trem de ferro”, “que,
acorda o tigre no cerro e espanta o caboclo
nu”, como dizia o poeta.
Dentre tantas iniciativas, a Madeira-Mamoré
foi mais uma e se pretendia, através
dela, desbravar o mundo, perdido na matas
virgens de então.
Ninguém podia pensar que os objetivos
propostos não seriam alcançados
e, mais ainda, que o fracasso os atingisse
de formar tão rápida e contundente.
Foi um capítulo da História
das Ferrovias que se encerrou e ficaria
totalmente apagado da Memória se
os esforços de muitos não
se somassem e acabassem por criar condições
para uma exposição deste porte
e desta importância e, por isso mesmo,
gerasse este catálogo.
È
preciso ressaltar a figura de Manoel Rodrigues
Ferreira, que durante muito tempo manteve
sob sua guarda a preciosa documentação.
Sabemos todos o quanto custa organizar e
preservar a nossa história, ele o
fez com maestria pois, além de historiados
e jornalista, deu asas ao seu espírito
de arquivista obstinado e determinado.
O desejo de manter a documentação
sob sua guarda e orientação
propiciou que outros pesquisadores encontrassem
o tesouro e formulassem um projeto inteligente,
que obteve aprovação do Ministério
da Cultura (MinC). Foram eles Silvia Maria
do Espírito Santo e Pedro Ribeiro.
Em seguida, o apoio imprescindível
do BNDES, que permitiu ao Museu Paulista
da Universidade de São Paulo (o museu
do Ipiranga) se tornar o detentor do Acervo
e , ao nele trabalhar, prepara-lo não
só para uma ou algumas exposições
mas, acima de tudo, torna-lo acessível
ao público pesquisador.
Este catálogo é,
de certa forma, a síntese do esforço
de todos aqueles que se preocupam com a
preservação da História
da Ferrovia, mas também a divulgação
de parte dos sonhos dispersos nas brumas
do tempo.
São Paulo, inverno de 1999

Navios cargueiros atracados
no cais de Porto Velho (Rondônia)
Cerca de 1909-1910

Grupo de Seringueiros às
margens do Rio Madeira. Cerca de 1909-1910
Ponte
sobre o rio Jaci-Paraná (Rondônia)
Cerca de 1909-1910
Trilhos na Floresta: A Ferrovia Madeira-Mamoré
Lara Borriero Milani/Regina
Mara Teles**
A história da construção
da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré
é permeada de vários complexos,
altos custos e empréstimos de capitais
estrangeiros. Localizado no atual Estado
de Rondônia, foi construída
com o intuito de ligar Santo Antônio,
então pequeno povoado, a Guajará-Mirim,
na divisa da Bolívia, e, com isso,
facilitar o comércio deste país
através do rio Amazonas e de lá
para o Atlântico. Por cerca de 400
quilômetros, a linha férrea
acompanhava os rios Madeira e Mamoré,
inavegáveis devidos as suas 20 cachoeiras.
A
primeira tentativa aconteceu em 1871 por
iniciativa do coronel norte-americano George
Earl Church, que encarregara a empreiteira
inglesa Public Works Construction Company
de construí-la. Em 1872, após
ser definido o ponto inicial da estrada
denominado Santo Antonio, chega à
região um grupo de engenheiros acompanhados
de corpo técnico de trabalhadores.
O governo brasileiro, por sua vez, envia
uma comissão para acompanhar os trabalhos.
Em 1873, uma nova comissão é
enviada pelo governo brasileiro, e são
detectadas as agruras do trabalho da construção,
as doenças tropicais que acometiam
os trabalhadores e a insalubridade no local.
Tanto que aos 10 meses de trabalho não
havia sido assentado sequer um trilho. A
Public Works rescinde o contrato, abandonando
no local todo material, e dá entrada
nos tribunais de Londres a um pedido de
indenização por prejuízos
e danos materiais. Em 1873 George Church
assina o contrato com os construtores norte-americanos
da Dorsay & Calwell. A empresa chega
ao local no início de 1874, mas o
abandona após algunsdias.
A
segunda tentativa parte novamente de Church,
em 1877, em contrato com a construtora norte-americana
P.&.T. Collins. Em 1878, chegam à
região os materiais ferroviários,
as ferramentas, os equipamentos, além
de técnicos e operários. Os
trabalhadores eram oriundos do Brasil e
de várias outras partes do mundo.
A região era infestada por todo tipo
de doenças tropicais, além
das próprias dificuldades da selva,
como o contato com os índios e o
isolamento. Havia falta de alimentos e medicamentos,
e os pagamentos estavam atrasados. Em 1878,
trabalhadores italianos incitaram uma greve
em revolta pela diferença de seus
salários comparados aos dos norte-americanos
e irlandeses.
Em
1879, após 1 ano e 6 meses de trabalho,
somente sete quilômetros havia sido
construídos e as construtora P.&
T. Collins estava absolutamente falida.
Church, com o fracasso, abandona a idéia
de construir a ferrovia, deixando para trás
um cemitério com centenas de mortos
das dificuldades da empreitada.
A
insalubridade era a causa principal dos
fracassos dos empreendimentos no século
XIX. Ao problemático relevo da região,
extremamente acidentado, aliava-se o excesso
de mosquitos, cujos número aumentava
ainda mais com as cheias e com a formação
de pântanos. O isolamento do local
e a falta de estrutura, como hospitais,
recursos farmacêuticos e médicos,
formavam o quadro em que se encontravam
esses trabalhadores.
Entre
1880 e 1900, o governo brasileiro manda
novas comissões, estuda projetos,
mas nada é concretizado. No mesmo
período, duas outras ferrovias estavam
sendo construídas ligando o altiplano
boliviano aos portos do Pacífico.
Com isso, tornava-se fato que a construção
da Madeira-Mamorá beneficiaria somente
o Mato Grosso e a região da Bolívia
entre as bacias do rios Madre de Dios, Beni
e Mamoré, caindo por terra a idéia
de que a Madeira-Mamoré seria a vida
econômica da Bolívia.
Finalmente,
em 1903, Brasil e Bolívia assinam
o Tratado de Petrópolis, ficando
o Brasil com o Território do Acre
e o governo brasileiro assumindo o compromisso
de construir a Estrada de Ferro Mandeira-Mamoré.
Em
1905, o Ministério da Industria,
Viação e Obras Públicas
publicou o edital de concorrência
para a construção de ferrovia,
que, após muita polêmica, foi
vencida por Joaquim Catramby, que a vendeu
a Percival Farquhar, empresário de
Pensilvânia (EUA), já experiente
em negócios em seu próprio
país e na América Central.
As obras se iniciaram em junho de 1907 e
a empresa encarregada por Farquhar foi a
norte-americana May, Jekyll & Randolph.
No entanto, o empreendimento sofreu com
os mesmos problemas das tentativas anteriores,
ou seja, calor intenso, doenças tropicais,
isolamento, falta de equipamentos, alimentação
imprópria e carência de medicamentos.
Neste
período o governo federal decide
ligar por telégrafo a região
à capital, Rio de Janeiro. Para este
fim, foi iniciada uma comissão encarregada
do projeto Linhas Telegrafas Estratégicas
de Mato Groso ao amazonas, chefiada pelo
então major Cândido da Silva
Rondon. A expedição termina
em 1909 com a instalação da
linha telegráfica de Porto Velho
a Cuiabá, que já estava ligada
ao Rio de Janeiro desde 1907.
Em
1909, a empresa Madeira-Mamoré Railway
Company, fundada na cidade de Portland,
nos EUA, arrenda as obras pelo prazo de
60 anos, de 1912 a 1972. De 1907 a 1912,
cerca de 21.000 trabalhadores eram, na sua
maioria, brasileiros, mas havia também
italianos, gregos, poloneses, dinamarqueses,
indianos, húngaros, barbadianos,
espanhóis etc.
Apesar
de um hospital ter sido construído
no local, em 1908, o Hospital Candelária,
era alto o número de vítimas
de malária. Segundo o relatório
do médico-chefe do Hospital, Dr.
H. P. Belt, especialista em doenças
tropicais, a região da ferrovia podia
ser considerada como a mais doentia do mundo.
Em
1909, o fotógrafo Dana Merrill é
contratado por Farquhar, dono do conglomerado
Madeira-Mamoré Railway, e enviado
à região para registrar a
colocação de trilhos, vigas
e pontes. Seu trabalho, entretanto, foi
muito além disso e acabou por retratar
todas as dificuldades e a diversidade étnica
que marcaram a construção
da ferrovia.
Em
maio e outubro de 1910 são inaugurados
dois trechos da ferrovia, respectivamente
com 90 ( de Santo Antônio a Jaci-Paraná)
e 62 quilômetros ( de Jaci-Paraná
a Cachoeira de Três Irmão).
É também nesse ano que Oswaldo
Cruz e Belisário Pena, médicos
do rio de Janeiro, chegam a Porto Velho,
contratado pela Madeira-Mamoré Railway
para visitar e diagnosticas os problemas
de saúde e as condições
sanitárias. Em agosto, um mês
após a sua chegada, Oswaldo Cruz
entrega um relatório propondo melhorias
no estado sanitário da região.
Nesse relatório, o sanitarista constatou
que o saneamento da região era impraticável,
pois ficaria duas vezes mais caro que a
construção da ferrovia.
Em
1911, um novo trecho é inaugurado,
com 220 quilômetros de extensão,
de Três Irmãos ao rio Abunã.
E finalmente, em agosto de 1912 é
inaugurado o último trecho, finalizando
364 quilômetros de extensão.
Em 1923 seriam acrescentados mais dois quilômetros
a esse total.
A
crise da borracha no Brasil, provocada pela
concorrência com o Oriente e pela
Primeira Mundial (1914), e, mais tarde,
a crise na bolsa americana (1929) comprometendo
seriamente a situação financeira
da Madeira-Mamoré Railway. Em 1931,
a empresa entrega a estrada de ferro ao
governo brasileiro, interrompendo o contrato
de arrendamento, rescindido três anos
mais tarde, em 1934, pelo governo federal.
Nas
décadas de 50 e 60, com a valorização
do transporte rodoviário, as ferrovias
começam a entrar lentamente em decadência.
Em 1979, surge a possibilidade de tombar
a ferrovia como patrimônio histórico,
idéia que já vinha se desenvolvendo
há algum tempo e tinha como responsáveis
a Associação Brasileira de
Preservação Ferroviária
(ABPF) e a Academia Paulista de História,
presidida pelo historiados Tito Livio Ferreira,
irmão de Manoel Rodrigues Ferreira.
Nesse mesmo ano, é aventada a hipótese
de reativar um trecho da ferrovia para fins
turísticos.
E,
1981, dos 366 quilômetros de extensão
da ferrovia Madeira-Mamoré, o trecho
de 7 quilômetros entre Santo Antonio
e o Salto do Teotônio – a maior
das cachoeiras do rio Mamoré –
foi reativado para turismo.
*Colaboração
de Manoel Rodrigues Ferreira.
**Lara Borriero Milani e Regina Mara Teles
são historiadoras e foram as responsáveis,
no Museu Paulista, pela pesquisa de texto
e imagem relativa à Coleção
Dana Merrill.

Autoridades
em visita ao trecho concluído da
ferrovia Madeira-Mamoré.
Cerca de 1909-1910
Fotos do acervo do livro produzido pelo
: BNDES
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