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Fotos Históricas de Rondônia

Animais em terreno inundado pelo Rio Madeira. Cerca de 1909-1910

   A Coleção dana Merril:
Momentos Decisivos para a sua Recuperação

Silvia Maria do Espírito Santo*

Quarenta anos após a realização do trabalho de documentação fotográfica das obras de construção de ferrovia Madeira-Mamoré pelo fotógrafo dana Merrill, uma caixa contendo negativos de vidro e acetato foi encontrada em São Paulo. Não se sabe exatamente quando ela foi trazida por Rodolfo Kesselring, engenheiro alemão que trabalho na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Em 1956, as imagens foram entregues pelo filho de Kesselring ao reporte fotográfico Ari André, que por sua vez as encaminhou ao jornalista Manoel Rodrigues Ferreira, engenheiro, escritor e sertanista.

De um conjunto de negativos cujo total alcançava mais de mil registros, incluindo aspectos da fauna e flora amazônica, o critério da seleção de Manoel Rodrigues Ferreira foi escolher as imagens referentes às fases da construção da estrada de ferro. Naquele primeiro momento, decisivo para a permanência das imagens fotográfica da ocupação amazônica, o olhar de engenheiro selecionou as fotografias que não se poderiam fazer hoje, em suas palavras. Os negativos restantes perderam-se. Quanto à autoria das fotografias, nada se sabe. Os negativos eram numerados mas não assinados.

Esses negativos foram o ponto da partida para que Manoel Rodrigues Ferreira documentasse, em 17 reportagens, contendo cerca de 100 imagens, aquela desconhecida história na Amazônia. O sucesso das matérias colaborou para aumentar em 20% a tiragem do jornal A Gazeta, no qual trabalhava. Em 1959, quando esteve em Rondônia, Manoel Rodrigues Ferreira teve a oportunidade única de consultar os arquivos da ferrovia, que seriam incinerados anos mais tarde, por ocasião da sua desativação. Naquele momento, a editora Melhoramentos propões a Manoel Rodrigues a realização de um livro. Em 1959, é então publicado A Ferrovia do Diabo, uma das mais completas pesquisas sobre a Estrade de Ferro Madeira-Mamoré.

Três anos após a publicação, Manoel Rodrigues Ferreira tomou conhecimento do livro escrito por Frank Kravigny, The Jungle Route (1940). Kravigny havia sido o escrevente e datilógrafo da empresa May, Jekyll & Randolph e em seu livro constavam outras imagens inéditas, inclusive do fotógrafo Dana Merrill. Assim Manoel pôde, finalmente, identificar a autoria do conjunto de negativos em seu poder.

A desativação da ferrovia, o desprezo e o sucateamento de seus componentes, no início da década de 70, mobilizaram Manoel Rodrigues Ferreira para a luta pela preservação desse patrimônio. A divulgação da venda da ferrovia como sucata para uma Companhia Siderúrgica de São Paulo surte efeito e a venda é sustada, mas não a desativação da ferrovia.

Durante toda década de 70, entidades culturais protestam contra o descaso do governo federal para com a Ferrovia Madeira-Mamoré. Em 1979, o poder público decidiu pela preservação de um trecho de 25 km, destinado ao uso turístico. A movimentação em torno do tema chamou a atenção do extinto Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan) e atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que entrou em contato com Manoel Rodrigues Ferreira solicitando o empréstimo dos negativos para reprodução. Os negativos são duplicados por Hans Gunter Flieg, fotógrafo profissional, e fornecidos ao fotógrafo José Romeu Caccione, funcionário do Sphan. Em 1980, a convite desse órgão, Manoel Rodrigues Ferreira realiza um seminário sobre a ferrovia em Porto Velho, onde foram expostas, pela primeira vez, as imagens de Dana Merrill no local de sua realização.

Meu contato com Manoel Rodrigues Ferreira deu-se em 1993, por ocasião da exposição Estrada de Ferro Madeira-Mamoré no Museu da Imagem e do Som/SP, na qual foram divulgadas 70 imagens da coleção e imagens produzidas pelo fotógrafo marcos Santilli. Dessa relação de trabalho e pesquisa, criou-se o espaço para o segundo momento decisivo para a trajetória da coleção. Três anos após a exposição, em 1986, fomos procurados por Manoel Rodrigues Ferreira , que , preocupado com a coleção, nos solicitou ajuda para dar um destino aos negativos. Elaboramos, então, o projeto de recuperação, difusão e produção cultural das imagens da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, a partir de duas fases: a aquisição e o tratamento documental e físico da coleção e, posteriormente, a elaboração de produtos culturais, A escolha do local que reunisse as condições idéias para preservação e pesquisa das imagens recaio sobre o Museu Paulista da Universidade de São Paulo. Durante anos apresentamos o projeto, sem sucesso, a várias instituições bancárias, visando um possível patrocínio.

A coleção está Aberta. Aguardamos um terceiro momento, facilitador de outro produtos culturais que ampliem o conhecimento dessa parte inesquecível da História Brasileira.


* Silvia Maria do Espírito Santo é socióloga e mestranda pela Escola de Comunicações e Artes da USP.


Deslizamento de Trilhos provocado por chuvas. Cerca de 1909-1910


No trecho pantonoso do Abunã. trabalhadores executam o assentamento dos trilhos sobre uma estiva de galharia para passagem do trem de lastro. Cerca de 1909-1910


Casal norte-americano em sua residência em Porto Velho (Rondônia).
Cerca de 1909-1910

O Fotógrafo Dana Merril

Pedro Ribeiro*

A documentação das grandes obras da engenharia civil é pratica comum desde os primórdios da fotografia. Muito são os exemplos de acervos retratando essas construções onde ressaltam, em particular, o grande ícone da modernidade, as ferrovias. Portanto, a contratação de um fotógrafo para registro da evolução das obras da Madeira-Mamoré não constitui um fato original. Quanto ao ambiente de trabalho, este era tenso – uma multidão de aventureiros das mais diversas etnias lutando contra as forças de uma natureza indomável que repelia, e ainda repele, à sua maneira, a introdução do homem. Nesse meio exótico, podemos especular, a interação do fotógrafo com o ambiente poderia provocar o estímulo para a criação de uma obra original. Isoladamente, contudo, esta situação em si não basta para que sujam trabalhos como o conjunto fotográfico Madeira-Mamoré: A construção da estrada de ferro em ambiente inóspitos, com a Sibéria ou as selvas do Congo, não gerou acervos importantes como as imagens da ferrovia amazônica. De onde, então, emergiriam essas imagens dramáticas e contundentes, para as quais não encontramos referências anteriores, senão da própria genialidade do fotógrafo.

Quem seira o autor dessas fotografia de qualidade técnica tão elaborada, criterioso em seu processamento, fato que as permitiu sobreviver às condições adversas de calor e umidade nas selvas amazônicas? Dana Merrill, o official photographer da Madeira-Mamoré Railway, só foi identificado através de The Jungle Route, o livro de Frank Kravigny, escriturário sobrevivente da construção. Pouco se sabe do fotógrafo, fora de fato de que teria trabalhado para a prefeitura de Nova Iorque e para lá voltou, como confirmam os boletins da Madeira-Mamoré Association. Provavelmente, foi essa experiência anterior que o capacitou para a empreitada, fornecendo inclusive o suporte técnico como o qual desembarcou na primeiroa clareira de porto Velho.

O equipamento fotográfico usado por Dana Merrill era praticamente o mesmo usado pela maioria dos profissionais de então. O formato 13 x 18 cm, considerado pequeno e leve para sua época, era o que mais se adequava às necessidades de deslocamentos freqüentes, por terrenos de difícil locomoção. Para os negativos, além das placas de vidro, mais comuns, Merril adotou também o uso dos chassis do tipo film pack, que era uma novidade. Estes eram composto por placas emulsionadas em bases flexíveis, bem mais leves que o vidro, acondicionadas em pacotes, geralmente de doze unidades. Esta opção permitia ao fotógrafo uma considerável economia de peso no equipamento e mais agilidade na troca das chapas. Contudo, a câmara usada continuava sendo aquela convencional, mais apropriada para a execução das documentações tradicionais, tomadas a média distância, rigorosamente enquadradas e privilegiando a pose, que de certa forma era induzia pelo uso compulsório do tripé.

Evidentemente, muitas das imagens remanescentes se enquadram nas categorias da produção fotográfica do início do século. Mas Merrill ra um fotógrafo incomum, à frente de seu tempo e não se limitava às imposições técnicas ou a padrões estéticos. Levando ao extremo as possibilidades de seu equipamento, explorava a variedade de ângulos e muitas vezes subvertia os padrões da fotografia da época, como quando força exposições longas para cenas de movimento. O importante ra não perder o instantâneo. Suas imagens sugerem que o fotógrafo se lançava ao ponto de vista que melhor traduzisse a sensação que lhe tomava, mesmo que para tanto tivesse que descer em valetas, subir em andaimes, entrar na lama, fotografar de dentro de barcos ou do alto de vagões e árvores. Esses procedimentos, considerados comuns nos dias de hoje, são marca pioneira de Dana Merrill, suas imagens mostram cenas tão dinâmicas como se o fotógrafo portasse uma câmera de 35 mm, dessas que só surgiram vinte anos mais tarde.

A tarefa de Merril era documentar o desenvolvimento da obra. A análise de suas imagens indica a ausência de um roteiro planejado, mais sugerindo uma narrativa arbitrária, estabelecida provavelmente segundo as oportunidades encaixadas na seqüência geral dos trabalhos, onde cada negativo, com sua numeração sistematicamente anotada a nanquim, induz à conclusão restrita de uma ordem cronológica sem confirmação.

Mas o fotógrafo, além dos trabalhos específicos da obra civil, envereda pelo desfile de quase todos os tipos humanos que participavam da empreitada, Aqueles que não eram apresentados em grupos, como os burocratas, os servidores da lavanderia ou do hospital, apareciam em poses individuais ou em duplas, com o fundo constante do ambiente de trabalho. Outros são retratados individualmente, com destaque para as fisionomias e seus trajes típicos, mas isso é apenas parte de seu trabalho. As imagens mais diretamente ligadas à construção. Se fosse Ferreira um botânico ou um biólogo, que imagens teriam chegado até nós.

Perguntas sem respostas, poucas são chapas atribuídas a Dana Merrill, como aquelas guardadas na Biblioteca Nacional¹. Aos arquivos queimados pelos últimos responsáveis pela ferrovia² somam-se as imagens perdidas do fotógrafo, com tantas outras vidas desaparecidas anonimamente, erguendo em torno da história ausente a cortina d lendas e mistérios que só fazem enaltecer a aura trágica da “ferrovia do diabo”.

*Pedro Ribeiro é fotógrafo e doutorando em História Social pela FFLCH-USP

¹A coleção de Percival Farquar ( setor de Obras Raras da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, empresário da Madeira-Mamoré Railway, reúne fotografias e de mais documentos do mesmo período.
² Em 25 de maio de 1966, com o Decreto 58.501, o presidente Castello Branco transfere a responsabilidade da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré para a Diretoria de Vias e Transportes do Ministério de Guerra. Pelo decreto, cumpria ao 5º Batalhão de Engenharia e Construções, sediado em Porto Velho, a desativação da ferrovia.


Trabalhador em acampamento. Cerca de 1909-1910

Fotos do acervo do livro produzido pelo : BNDES

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Porto Velho 3/12/2008